No dia a dia, ouço isto vezes sem conta: “Estou com olheiras porque ando cansada.”
A verdade é simples: o cansaço pode piorar, mas raramente é a causa principal. Na maioria dos casos, as olheiras são um resultado de vários mecanismos ao mesmo tempo — e é exatamente por isso que tanta gente “faz de tudo” e não vê mudança real.
Este artigo é para ti (cliente ou profissional) que queres uma resposta séria: o que são olheiras, como identificar o tipo certo e o que faz sentido fazer — com segurança e expectativas realistas.
Nota importante: conteúdo informativo. Não substitui avaliação profissional quando indicada.
O que são olheiras (em linguagem clínica)
O termo clínico mais usado é hiperpigmentação/escurecimento periocular. E as causas mais comuns incluem:
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Pigmentação (melanina aumentada, muitas vezes agravada por sol ou inflamação)
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Vascular (vasos mais visíveis, estase/tonalidade azulada ou arroxeada)
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Estrutural (sombra criada por sulco infraorbitário/tear trough, perda de volume, flacidez)
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Edema/bolsas (retenção de líquidos, “puffy eyes”)
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Inflamação por atopia/alergias/dermatite + fricção (coçar os olhos é um “combustível” para piorar)
E aqui está o ponto-chave: a maioria é mista. Ou seja, não existe “uma” olheira — existe uma combinação com um mecanismo dominante.
Os 4 tipos que realmente importam (e como reconhecer)
A classificação prática mais útil divide em: pigmentária, vascular, estrutural e mista.
1) Olheira pigmentária
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Cor castanha
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Pode coexistir com melasma/PIH
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Agrava com sol, irritação, fricção e inflamação
2) Olheira vascular
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Tom azulado/arroxeado/avermelhado
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Mais comum em pele fina e com vasos mais aparentes
3) Olheira estrutural (sombra)
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“Escuro” muda muito com luz/ângulo
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Sulco (tear trough), perda de volume e flacidez criam sombra — e creme nenhum elimina anatomia
4) Olheira mista
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Mistura real (ex.: pigmento + vasos + sombra)

Diagnóstico em gabinete: o método simples que evita 80% dos erros
Eu sigo um protocolo direto, que qualquer profissional sério consegue aplicar:
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História curta e objetiva
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Desde quando? Há alergias/atopia? Coça os olhos? Produto novo? Dorme mal (como agravante)?
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Cor dominante
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Castanho vs azul/roxo vs “sombra”
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Teste de tração (esticar suavemente a pele)
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Se melhora muito → frequentemente há sombra/estrutura
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Anatomia
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Sulco, perda de volume, bolsas, flacidez, pele muito fina, vasos visíveis
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Sinais de irritação/dermatite
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Se a pele está irritada, qualquer ativo vira problema
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Fotografia padronizada
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Mesma luz, mesmo ângulo, distância semelhante
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Definição do objetivo
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“Melhorar 20–40% com rotina” vs “quero correção estrutural” (são planos diferentes)
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Este raciocínio é coerente com as revisões clínicas e com a classificação usada em dermatologia estética.
Erros clássicos (que eu vejo todos os meses)
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Tratar sombra com clareadores → frustração garantida.
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Ácidos/retinoides agressivos mal usados na pálpebra → irritação, descamação e, em alguns casos, pior pigmentação por inflamação.
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Ignorar alergia e fricção (a pessoa coça) → protocolo nunca estabiliza.
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Prometer “tirar olheiras” sem explicar que a maioria é mista e que estrutura tem limite com cosmética.
O que funciona em casa (tópicos) — por tipo de olheira
A evidência para “apagar olheiras” com cosméticos é limitada, mas há ingredientes com dados e lógica clínica para melhorar (não milagres).
A) Se o dominante é pigmentário (castanho)
Objetivo: reduzir pigmento/irritação e melhorar luminosidade.
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Niacinamida: há estudos clínicos a avaliar segurança/eficácia na área infraorbital.
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Vitamina C: existe estudo clínico clássico em “dark circles of the lower eyelids” com avaliação quantitativa.
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Retinoides bem formulados podem ajudar textura e sinais de envelhecimento periocular, mas com foco em tolerância (introdução lenta).
Cautela real: a pálpebra irrita facilmente. Se arde/descama, estás a ir depressa demais.
B) Se o dominante é vascular/edema (azul/roxo + “papos”)
Objetivo: melhorar edema e aparência de congestão (quando existe).
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Cafeína: há pequenos estudos/formulações avaliadas para redução de “puffy eyes” e revisão de ingredientes comuns em eye creams.
Aqui sou direto: se a olheira é sobretudo vasos profundos visíveis, tópico pode ajudar pouco — e é aí que entra a conversa honesta sobre limites.
C) Se o dominante é estrutural (sombra/sulco)
Objetivo: melhorar pele à volta, mas aceitar que não corrige anatomia.
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Hidratação/barreira + antioxidantes + retinoide tolerável (se indicado) podem dar melhoria de qualidade de pele, mas o “escuro” por sombra precisa, muitas vezes, de avaliação para abordagem estrutural.
Quando a cosmética deixa de ser suficiente
Considera avaliação médica/procedimentos quando:
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há tear trough/sulco marcado e/ou perda de volume
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bolsas importantes, edema persistente ou flacidez relevante
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componente vascular evidente e o objetivo é mudança significativa
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hiperpigmentação resistente apesar de rotina bem feita e sem irritação
Procedimentos (laser, peelings, preenchimentos): segurança primeiro, naturalidade sempre
Laser periocular
Aqui não há “atalhos”: segurança ocular é ponto crítico. Um consenso recente reforça a necessidade de proteção ocular adequada, incluindo o uso de escudos metálicos devidamente lubrificados e vigilância intraoperatória quando se trata à volta dos olhos.
Preenchimento (tear trough)
Pode ser muito útil em casos bem selecionados, mas tem riscos específicos (edema persistente, irregularidades, efeito Tyndall e eventos vasculares raros). Por isso, eu considero indispensável que quem executa tenha plano de segurança e siga guias de gestão de oclusão vascular por AH.
Limites da estética: quando encaminhar (sem ego)
Como regra profissional, eu encaminho quando:
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suspeito que o dominante é estrutural e o cliente quer correção real
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existe dermatite/alergia ativa (precisa de controlo clínico)
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há assimetria nova, edema súbito importante, dor, alterações visuais (red flags)
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o caso pede procedimentos invasivos/tecnologias médicas
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não há resposta após 8–12 semanas com plano bem desenhado e cumprido
Encaminhar não é “perder cliente”. É ganhar confiança.
Fontes
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Sarkar R. et al. Periorbital Hyperpigmentation: A Comprehensive Review. (2016).
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Goldman A. Periorbital Hyperpigmentation—Dark Circles under the Eyes. (2021).
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Classification and characteristics of periorbital hyperpigmentation. Skin Research & Technology (2020).
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Kesty K. et al. Expert Consensus on Ocular Safety During Laser Procedures. (2025).
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Murray G. et al. Guideline for the Management of Hyaluronic Acid Filler-induced Vascular Occlusion. (2021).
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Kaufman J. et al. Efficacy and tolerability of a retinoid eye cream… (2022).
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Effects of vitamin C on dark circles of the lower eyelids… (2009).
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Hamie H. et al. A review of the efficacy of popular eye cream ingredients. (2024).
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